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Você sabe o que é Venture Bearding?

Você sabe o que é Venture Bearding?

Em tempos de excedente de capital no mercado e baixa histórica da taxa de juros, é quase natural que exista verve em torno de oportunidades de venture capital, que prometem retornos elevados, a despeito de serem mais arriscadas. Contanto que tais riscos sejam devidamente mapeados e, de alguma forma, mitigados ou contingenciados, não haveria problemas, certo? Nem tanto.

Como já mencionado em texto publicado pelo Legal Hub há poucas semanas, existem players que infelizmente insistem em ignorar históricos de empresas que apresentam práticas maléficas, facilmente identificáveis em auditoria ou due diligence.

Observar esse panorama da perspectiva do advogado empresarial não deixa de ser um misto de sensações: por um lado, a ansiedade por perfectibilizar investimentos que permitem que soluções tecnológicas avançadas cheguem até consumidores e, por outro, garantir que as práticas de governança estejam de acordo com o Direito, além dos interesses no ROI de cada acionista ou mutuante – somos apenas vetores ou mantenedores de uma ordem que nos é imposta, afinal?

Pode ser que tais questionamentos sejam considerados apenas moinhos de vento numa batalha quixotesca, mas ainda assim controvérsias geradas pela oposição de interesses continuam existindo. Uma delas é o tema desta coluna, que se pauta em estudo realizado pelos professores Ann McGinley e Benjamin Edwards, da Boyd School of Law, da University of Nevada, Las Vegas. Nele, constatou-se a existência de um fenômeno de projeção de imagens masculinas por fundadores de startups em busca de investimentos, ao qual se atribuiu o nome de venture bearding – algo como deixar a barba crescer para o mercado de venture.

O referido estudo toma como premissa que investidores se sentem mais confortáveis com pessoas que se assemelham a eles, bem como o fato de que a grande maioria dos sócios de firmas de venture capital é composta por homens, os quais possuiriam expectativas (objetivas ou não) das características buscadas na figura do empreendedor.

De forma reflexa, essa busca pela masculinidade empreendedora, se é que podemos chama-la assim, pode ser vista em algumas estatísticas de alocação dos investimentos. Em 2018, startups lideradas por mulheres receberam apenas 2,2% do total de dólares investidos em venture capital nos EUA. Não obstante, as startups encabeçadas por mulheres que efetivamente receberam aportes tiveram em média investimentos de USD 5,9 milhões, ao passo que aquelas lideradas por homens alcançaram uma média de USD 17,3 milhões.

Para vingar nesse meio, as founders se valem de estratégias variadas para apresentar imagens tidas como masculinas, vide incorporar metáforas esportivas e retórica agressiva, de modo a desenvolver o rapport necessário com investidores de venture homens.

O exemplo de Elizabeth Holmes, fundadora da malfadada Theranos, é bastante simbólico, tendo em vista que o vestuário por ela visava alcançar a imagem de masculinidade de exigida, conscientemente ou não, por potenciais investidores. Para tanto, ela empregou também um estranhíssimo tom de voz artificialmente aprofundado, contribuindo à construção do papel caracterizado por elementos masculinos. É uma pena que tanta energia tenha sido canalizada para o cumprimento de papeis socialmente impostos e não à estruturação de um modelo de negócio lícito e viável, tendo em vista o triste desfecho da referida empresa.

Outra tática eventualmente levada a cabo é substituir a presença feminina em reuniões de apresentação de oportunidade de investimento, de modo que a fundadora da startup designa um homem como cofundador para que receba a atenção desejada de interessados. Infelizmente, isso não se trata senão da cessão de participação própria da empreendedora a um terceiro em troca de um mínimo de atenção para suas ideias.

Como se isso não bastasse, o estudo realizado relata episódios que beiram o absurdo, como a situação descrita em que uma fundadora de startup, ao fazer um pitch a investidores, notou que um deles assistia a vídeos pornográficos em seu celular ao invés de assistir à apresentação ou, basicamente, de agir de qualquer outra forma que fosse mais respeitosa na ocasião.

Todavia, em contraste com toda a desconsideração tida para com startups conduzidas por mulheres, existe uma miríade de motivos pelos quais detentores de capital andariam bem ao trata-las como iguais que são, além da óbvia percepção de que relações respeitosas tendem a ser mais proveitosas.

Isso porque o The Washington Post, em artigo nem tão recente assim, jogou luz sobre alguns efeitos acarretados pelo aumento da diversidade (não só de mulheres, mas de grupos sociais sub-representados como um todo) na esfera de administração de companhias que compõem o S&P 500. Surpreendentemente ou não, o que se verificou foi que a dinâmica dos boards se modificou, com a difusão de deliberações mais aprofundadas, tendo em vista a variedade de pontos de vista levantados por pessoas de origens diferentes.

Consequentemente, foi possível medir benefícios em diversos aspectos, como a realização de operações societárias menos dispendiosas, um número menor de escândalos relacionados à liderança e maior retorno sobre as participações detidas pelos acionistas.

Além dos potenciais benefícios trazidos acima, uma inferência lógica nos permite imaginar que, ao se reconhecer essa lacuna do mercado que recompensa identidades masculinas de forma desequilibrada, é possível que estratégias de investimento que direcionem mais capital a startups lideradas por mulheres e por pessoas advindas de outras minorias sociais ou econômicas acabem por oferecer retornos interessantes.

Os próprios autores do estudo demonstram que já há fundos de venture capital e aceleradoras, como a Backstage Capital, que se valem explicitamente de estratégias que investem em empresas encabeçadas por founders de agrupamentos sociais sub-representados no mercado.

Por fim, não deixa de ser notória a imposição pelo venture bearding de custos na sociedade, e não somente nas mulheres founders. O descompasso entre empreendedoras qualificadas para atender demandas do mercado e a alocação de capital, que tende a desprestigiá-las, pode acarretar um grande desperdício de oportunidades de desenvolvimento tecnológico, de forma a perpetuar assimetrias entre diferentes agrupamentos sociais (sobretudo de gênero).

Para combater os problemas que desembocam no venture bearding, o estudo sugere a combinação de práticas de mercado, como a de fundos dedicados a empreendedores sub-representados, com uma regulamentação jurídica mais afinada. Se tal solução pode trazer resultados positivos para mulheres que empreendem e buscam levantar capital é uma incógnita.

Independentemente disso, porém, é imprescindível a qualquer agente que se disponha a atuar nesse contexto ter a plena consciência de, não importa quão heroicos founders possam parecer, ainda são pessoas, com problemas e necessidades humanas. Desconsiderar isso significa abrir a porta para que vieses subjetivos prevaleçam sobre critérios técnicos (ou seja, sobre o talento contido em startups lideradas por mulheres), ignorando os impactos, diretos e indiretos, que isso pode ocasionar.

Comunidade Legal Hub
Paulo Kroeff Baggio Silva
Paulo Kroeff Baggio Silva Seguir

Advogado graduado pela UFPR e pós-graduado em Direito Societário pela FGV/SP e pela UNICURITIBA. Suas experiências profissionais incluem operações de M&A envolvendo companhias-alvo no Sul do Brasil e desenvolvimento de modelos de negócio de startups.

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