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Transformação digital: digitalização, governança e estratégias possíveis

Transformação digital: digitalização, governança e estratégias possíveis

por Paulo Kroeff Baggio Silva e Rodrigo Alberto Báez Avila

Num mundo cada vez mais conectado, a transformação digital na realidade corporativa toma proporções mais relevantes, revelando-se um caminho sem retorno.

Mesmo não sendo um tema exatamente novo, sua definição ainda é ambígua e comporá significados diversos. Para esta rápida aventura reflexiva, podemos ficar com a definição abaixo da empresa global de consultoria e pesquisa Gartner:

“Transformação digital pode se referir a qualquer coisa, desde a modernização de TI (por exemplo, computação em nuvem) até a otimização digital e invenção de novos modelos de negócios digitais”.

Em outras palavras, a transformação digital é a integração da tecnologia digital em todas as áreas de um negócio, mudando fundamentalmente a forma como uma empresa opera e entrega valor a seus clientes.

Além disso, ela implica uma mudança cultural, exigindo que as organizações desafiem constantemente seus propósitos e modelos de negócio para que possam implementá-la com sucesso.

Digitalização em dados

Pequenas e grandes corporações têm buscado atualizar a forma pela qual fazem negócios, fortalecendo sua presença virtual e utilizando novas ferramentas tecnológicas para remodelar suas operações.

Uma pesquisa realizada pela consultoria McKinsey apontou que mais de oito em cada dez empresas entrevistadas haviam começado algum tipo de transformação digital nos últimos cinco anos. Contudo, apesar do elevado número de aderentes, a taxa de sucesso dessas implementações é consistentemente baixa: menos de 30 por cento dos participantes da pesquisa apontaram uma implementação bem sucedida da digitalização de suas operações.

Mesmo setores com vasto desenvolvimento e aplicação de tecnologia, como as big techs, mídia e telecomunicações, enfrentam dificuldades nessa implementação. A taxa de sucesso nesses casos não passou de 26%. Ainda assim, uma proporção mais significativa do que aquela vista em indústrias mais tradicionais como óleo e gás, automotiva, infraestrutura e farmacêutica. Nessas, a média de sucesso na implementação da transformação digital ficou entre 4% e 11%.

Uma importante variável apresentada pelo estudo dizia respeito ao tamanho da companhia. Empresas com menos de 100 funcionários são 2,7 vezes mais prováveis de reportar uma transformação bem sucedida do que empresas com mais de 50.000 funcionários.

De toda sorte, apesar de os números sugerirem grandes desafios àqueles que empreendem tentativas de transformação digital, algumas estatísticas recentes trazem algum alento por conta do contexto atravessado neste ano, dado o choque trazido pela pandemia no cenário corporativo global. Impulsionadas pelo distanciamento social e trabalho remoto, iniciativas nesse sentido foram aceleradas e, acredita-se, se revelaram sustentáveis.

Em artigo publicado pelo Financial Times, o CEO da Microsoft, Satya Nadella, apontou que, apenas nos dois primeiros meses da pandemia, houve o equivalente a dois anos de transformações digitais. Segundo ele, esses resultados foram impulsionados pela propagação do trabalho remoto, ensino à distância e a consequente demanda por uma infraestrutura em nuvem para atender tais necessidades.

Nesse sentido, o IBM Institute of Business Value divulgou uma pesquisa 30/09/2020, realizada com quase 3.500 executivos em 20 países, que identificou uma "mudança de cultura" nas corporações em todo o mundo e concluiu que "os executivos devem aceitar que as mudanças induzidas pela pandemia na estratégia, gestão, operações e prioridades orçamentárias vieram para ficar”.

Entre as maiores prioridades até 2022, a pesquisa apontou o fluxo de caixa e a gestão de custos e liquidez. Cerca de 60% disseram que estavam acelerando a transformação digital de suas organizações, enquanto três quartos dos entrevistados disseram planejar investir em recursos de TI mais robustos.

No entanto, talvez ainda mais importante do que iniciar processos de transformação, um grande marco dessa mudança é que dois terços dos entrevistados responderam que conseguiram implementar iniciativas que, em sua ótica, encontravam resistência no mundo corporativo anterior à Covid-19.

Vale notar que o fenômeno da transformação digital não se limita à adoção na esfera privada. Há poucos dias o novo Primeiro Ministro do Japão, Yoshihide Suga, propôs a criação do posto de Ministro da Transformação Digital, sendo a primeira agência digital do país, visando à adoção de procedimentos que unifiquem a estrutura burocrática japonesa, promovendo maior eficiência no serviço público daquele país.

Governança da transformação digital

Observar processos de transformação digital pelas lentes do Direito exige o cuidado com o contexto em que cada organização e seu modelo de negócio se inserem, bem como com a tecnologia que se busca implementar na organização.

Isso porque o papel do profissional jurídico nesse processo se assemelha a trocar um pneu com o carro em movimento, dada a manutenção das atividades da empresa enquanto ela busca alterar sua forma de entregar valor a seus clientes.

Um pano de fundo comum a esse fenômeno é o fato de que projetos com esse escopo possuem nas arquiteturas de nuvem seu pilar fundamental. É por meio delas que diversos modelos de negócio passam a assumir a condição de software as a service (“SaaS”), em que o provedor do serviço de nuvem assume mais responsabilidades do que modalidades tradicionais de licenciamento de software, como virtualizar servidores e armazenamento, sistemas operacionais, ferramentas de desenvolvimento e aplicativos hospedados.

Diante desse cenário, é grande a contribuição que pode oferecer à estratégia, planejamento, governança e melhores práticas envolvendo a implementação da transformação digital. Para que essa transição da prestação de serviços ou da comercialização de produtos físicos ao mundo digital ocorra sem sobressaltos, é necessário se atentar a alguns aspectos essenciais dos negócios realizados em ambiente digital e como se dá seu reflexo no plexo de contratos que os regulam.

Estratégias Possíveis

A migração de serviços para ambientes de nuvem traz uma série de preocupações jurídicas, que, em larga medida, buscam alinhar interesses nos seguintes aspectos:

a)   direitos relativos a dados, como acesso, uso e controle;

b)   titularidade e uso de direitos de propriedade intelectual novos e/ou previamente existentes;

c)   confidencialidade e segredos de negócio, sobretudo no que diz respeito a processos internos;

d)   gerenciamento de riscos, como a responsabilidade de fornecedores para com consumidores e reguladores;

e)   questões regulatórias e de privacidade; e

f)   níveis de performance prestação de serviço.

Esses temas merecem tratamento específico e aprofundado num framework de trabalho composto por boas práticas, como mencionado anteriormente. Tais práticas envolvem, inicialmente, a revisão de contratos e termos e condições vigentes para avaliar as consequências de aditivos ou rescisão para a substituição por uma ferramenta tecnológica.

Da mesma forma, é preciso analisar o feixe de contratos que regulará a relação entre a empresa e a prestadora de serviço de nuvem, por exemplo, de modo que sejam o, documentados preocupações e riscos desde as fases iniciais da ação da nova tecnologia.

A compreensão da nova tecnologia a fundo e de maneira integrada entre as diversas áreas da organização, de modo a ter claro seu funcionamento, tende a otimizar as chances de sucesso da transformação digital e, em última análise, da própria organização no mercado em que atua.

Objetiva-se, dessa forma, alcançar contratos e aditivos que reflitam a completude das relações das quais a empresa participa, permitindo-a adotar procedimentos que assegurem a observância das leis aplicáveis.

Isso significa que a transformação digital é outro movimento econômico, cultural e social que, por mais veloz que se pretenda, não foge à sombra do Direito. Assim sendo, os passos comentados acima não passam senão de sua dimensão jurídica, aproximando-a aos anseios empresariais que motivam esses processos de mudança corporativa.

 

Comunidade Legal Hub
Paulo Kroeff Baggio Silva
Paulo Kroeff Baggio Silva Seguir

Advogado graduado pela UFPR e pós-graduado em Direito Societário pela FGV/SP e pela UNICURITIBA. Suas experiências profissionais incluem operações de M&A envolvendo companhias-alvo no Sul do Brasil e desenvolvimento de modelos de negócio de startups.

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