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O papel das certificações na luta contra o Green Washing

O papel das certificações na luta contra o Green Washing

O uso das expressões “compostável” e “biodegradável” é bem restrito no estado da Califórnia, Estados Unidos. A lei procura garantir que os consumidores recebam informações precisas sobre os produtos que estão adquirindo, principalmente acerca dos impactos ambientais após o descarte. O Walmart sabe que a restrição é severa e a punição pelo descumprimento também. A multinacional pagou o valor aproximado de $1 milhão de dólares, além de outras proibições impostas. Qual o motivo? Green Washing. Acusada de vender, tanto em lojas físicas como pelo e-commerce, produtos plásticos rotulados de forma enganosa como “biodegradáveis” e “compostáveis”, a empresa é um dos (maus) exemplos dessa prática conhecida como falso ecofriendly.

Mas afinal, no que consiste o Green Washing? A expressão tem um significado bastante simples e conhecido: afirmar ser ecológico e, na verdade, não ser. É uma estratégia negativa de marketing, utilizada para cativar o consumidor consciente, aumentar as vendas e ganhar a fama de preservacionista. Normalmente utilizado por empresas, gera uma competitividade desleal. Ser ecológico demanda investimento, estudo, supervisão e inovação. Quando uma empresa realmente realiza isso, merece a valorização do mercado, pois quem planta faz jus aos frutos. O problema se instaura quando empresas que não se empenharam (de forma comprovada) em realizar uma mudança ecológica, estampam palavras de cunho ambiental em seus rótulos.

A legislação da Califórnia proíbe totalmente a venda de plásticos rotulados como “biodegradáveis” (ou palavras semelhantes) e “compostáveis” (salvo se comprovado por padrões científicos pré-estabelecidos). O banimento dos produtos foi a estratégia eleita pelo estado americano para combater o Green Washing. Mas não é a única, e melhor, opção. Produtos biodegradáveis podem ser uma ótima opção, desde que tenham a sua rápida biodegradação comprovada e não liberem químicos nocivos durante o processo. Apenas lembrando que o plástico biodegradável é dividido em duas categorias: aquele com a composição tradicional envolvendo petroquímicos e o bioplástico (biopolímero). O segundo é a opção realmente sustentável e menos agressiva. A proibição da venda desses produtos é de certa forma um retrocesso, pois pode desacelerar o desenvolvimento de novos materiais, desmotivar o consumidor a procurar produtos eco e transformar o mercado em um ponto de venda de (novamente) apenas materiais convencionais.

Como fiscalizar a prática e, ainda, motivar o meio empresarial e cientifico a investir em materiais menos agressivos ao meio ambiente? A resposta está nas certificações. Nenhuma empresa, fábrica, companhia precisa ser perfeita, considerando parâmetros ambientais. Torna-se cada vez mais evidente, no entanto, que o mercado exige mudanças e adaptações. Consumidores querem produtos menos nocivos para que possam colaborar sem abrir mão do padrão de vida que possuem. O marketing exerce um papel muito positivo e importante nesse ponto. Ele entrega às empresas o poder de conquistar o cliente mediante soluções ambientais. Investidores também se interessam, quem melhor que eles para acompanhar o fluxo do mercado global? E as certificações são a garantia de que estão investindo no produto certo.

Atualmente, existem várias formas de certificar-se como sustentável e ecológico, depende muito do setor de atuação. Na parte de engenharia e construção existe a LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), a AQUA-HQE (aplicada pela Fundação Vanzolini no Brasil); na área de alimentos há o selo de produto orgânico, vegano; há certificações que garantem um apoio à causa ambiental, como o 1% For The Planet e o certificado de Empresa B, dentre muitas outras opções. A aquisição das referidas certificações exigem que o produto, objeto ou empresa se submetam aos procedimentos estabelecidos pelas associações e organizações. Além de pôr-se à prova, é necessário o cumprimento de todos os requisitos para somente então exibir (com orgulho) a certificação no produto.

No âmbito dos produtos biodegradáveis, existem alguns selos que comprovam a característica do produto, mas (ainda) não no Brasil. No território nacional, a norma ABNT NBR 15448-2:2008 estipula requisitos e métodos de ensaio para determinar a biodegradação e compostagem de embalagens plásticas. Já representa uma forma de orientação, apesar de dificultar a assimilação pelo consumidor. Ao elegerem um produto na prateleira de um supermercado, as pessoas ecologicamente conscientes procuram por um símbolo único que comprove o benefício ambiental, como ocorre com o selo “orgânico”. Ao ver o item, é sabido que há uma fiscalização por trás e que vale o investimento, pois aquele realmente é um diferencial. Na Europa, há o selo da European Bioplastics, no Japão há o Sistema de Certificação JBPA (Japan BioPlastics Association), o selo do BPI (Biodegradable Product Institute) é, por sua vez, derivado dos Estados Unidos.

Observa-se que a inexistência de certificações e garantias de compliance ambiental pode gerar grandes prejuízos para as empresas e seus produtos. Em primeiro lugar, o mercado se auto regula. Ao investir em soluções ambientais, tomar medidas menos agressivas, diminuir a pegada de carbono e a geração de resíduos, uma empresa espera ser reconhecida por isso e aproveitar-se do diferencial. Quando outra empresa se beneficia também da fama ecológica, sem desembolsar investimento e tempo, é prevista uma retaliação. Ademais, o consumidor exerce um papel importante nesse aspecto. Cada vez mais informado e orientado sobre os impactos ambientais dos produtos que consome (e sobre a prática do Green Washing), o público, por meio do seu poder de escolha e de compra, deixa de apoiar empresas e produtos que, de certa forma, o enganaram.

A tendência é que as novas tecnologias e materiais inteligentes tragam inovações para o mercado, colaborando para o desenvolvimento sustentável. Da mesma forma, é esperado que as novidades estejam pautadas em benefícios ambientais comprovados e, principalmente, certificados.

Comunidade Legal Hub
Carol Vosgerau Gusi
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Formada em Direito pela PUC-PR. Mestranda em Gestão Ambiental pela Universidade Positivo. Fundadora da CVG ambiental, plataforma para consultoria ambiental e informações de sustentabilidade. Embaixadora de Sustentabilidade da Revista TOPVIEW.

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