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O Legal Design como diferencial competitivo na Advocacia

O Legal Design como diferencial competitivo na Advocacia

Ilustração: Law by design by Margaret Hagan [1]

Primeiramente lanço uma provocação. Nós estamos em uma mudança de era ou em uma era de mudanças? [2] Digo isto porque no mundo atual estamos sempre buscando inovação em todos os segmentos e no Direito não poderia ser diferente. Assim, a inovação se dá quando entregamos soluções diferentes das anteriores, ou seja, quando entregamos valor ao nosso usuário.

Legal design é um tema que está muito em voga na atualidade, mas afinal o que é isso? Legal design nada mais é do que a aplicação de metodologias do design thinking ao Direito. Mas o que isso quer dizer? O design tem metodologias próprias que fazem com que sempre pense no ser humano antes de criar algo.

Aqui tem outro ponto que me intriga. O Fórum Econômico Mundial elegeu, alguns anos atrás, a criatividade como uma das competências que o profissional teria que desenvolver até 2020 [3]. Pois bem, paremos para refletir. Quando foi que o estudante de direito, bacharel, advogado, juiz, ou profissional de qualquer outra área jurídica foi ensinado e estimulado a ser criativo? Esta é apenas uma das varias habilidades que o profissional do direito deve começar a desenvolver.

O mundo vem sofrendo grandes transformações e os modos tradicionais de entregar soluções já não dão conta das novas demandas. Estamos em uma era em que as pessoas sempre procuram informações na internet, ou seja, estamos lidando com usuários altamente informados. Isto quer dizer que a entrega de valor deve ser repensada e analisada sobre outros vieses. Ai que vem a importância de colaboração e multidisciplinariedade. O olhar jurídico vem condicionado pelo modelo de ensino até hoje empregado, porém, a partir do momento que nos permitimos ouvir outras perspectivas e deixamos aquele ar de superioridade típico do Direito de lado nossa visão de mundo é alterada significativamente e é isso que o cenário atual necessita.

Vamos lá, o que diferencia o designer do advogado? O designer, ao criar algo, sempre pensa em quem está criando. Por que não fazer isso no direito? O legal design surgiu com esta intenção, de produzir produtos e serviços jurídicos mais uteis para seus usuários. Assim, se fala em design centrado no usuário. Mas por que usuários? O advogado tem diversos usuários. Por exemplo, o usuário de um contrato é a parte que o contrata, o usuário de uma petição é o juiz que vai analisa-la, etc. [4]

Desta forma, o legal design tem a finalidade de clarear o direito, não de simplificá-lo. Isto porque o Direito tem conceitos próprios que muitas vezes não podem ser retirados. Porém, o usuário tem necessidade de ser informado de uma maneira que ele entenda. Uma vez ouvi que design não é apenas o que é bonito, mas o que funciona. Um exemplo disso é o caso da política de privacidade do NUBANK [5], onde as informações foram redigidas de forma clara e precisa, dando autonomia e facilitando que o usuário daquele serviço interaja com a interface.

Vamos fazer um exercício de futurologia, ou "presenteologia" [6], mas, e se o mundo jurídico olhasse para o usuário? e se os profissionais e instituições do direito entregassem as informações da forma como as pessoas necessitam e entendem? Pode ter certeza que o Direito seria mais leve e aumentaria a satisfação dos usuários, bem como a credibilidade frente a um mercado tão competitivo.

Após todas as reflexões alguns ainda se perguntarão como colocar o legal design em prática? Certa vez me disseram que design se aprende fazendo. O modelo do design thinking passa por cinco etapas, havendo divergência doutrinária quanto aos nomes, mas irei chamar de: a) empatia; b) definição do problema; c) idealização; d) prototipação; e) teste ou apresentação.

Imagem de autoria própria [7].

Darei um exemplo prático para tentar elucidar estas etapas. Imagine que um cliente chega ao seu escritório com determinado problema. O fato de você ouvi-lo com atenção e sem julgamento faz com que absorva mais as informações sobre o caso relatado entendo suas reais necessidades [8]. A empatia está muito relacionada com duas habilidades essenciais, as de escutar e perguntar. [9]

Após a absorvição das informações, passará para a etapa de definição do problema onde haverá a interpretação de toda a informação coletada. Neste momento é importante que sejamos capazes de identificar o problema de nosso cliente de forma clara, fazendo através do processamento das informações antes obtidas.

A etapa seguinte é a de criação de soluções para o problema extraído da interpretação de toda a informação. Neste ponto é essencial a atuação de uma equipe interdisciplinar, sendo capaz de aumentar a percepção sobre aquele objeto estudado (problema do cliente), fazendo com que se tenha uma percepção macro da situação e, consequentemente, possíveis soluções mais criativas. Aqui é o momento do brainstorming.

Na prototipagem teremos a criação de um produto ou serviço de acordo com o que foi definido nas etapas anteriores. Um exemplo seria a elaboração de um contrato de acordo com o que se entendeu sobre o problema do cliente.

Após a concretização de um protótipo inicia-se a fase de teste. Neste momento iremos validar o protótipo com o usuário. No caso exemplificado seria no momento da exibição do contrato para o cliente. Aqui saberemos se entendemos de fato o seu problema e o que esperava daquele serviço. Torna-se extremamente importante colher o feedbacks e, se for preciso, redefinir as ideias e as soluções.

Vale dizer que estas etapas são meramente elucidativas, tendo produtos ou serviços que poderão ser desenvolvidos com base em outras etapas. Pode ser que no meio desse processo tenhamos que acrescentar ou retirar algumas etapas. A questão principal é sempre pensar no usuário, criando produtos e serviços a partir dele, do mesmo modo que faz um designer.

Observe que aplicar as metodologias do design ao direito é algo desafiador, justamente pela falta de costume dos profissionais da área jurídica. Porém, se formos pensar no ser humano, quem não gosta de saber que houve um cuidado e carinho na criação de algo? Isso agrega valor ao produto e serviço. O legal design é mais do que um emaranhado de ferramentas, é uma mudança de mentalidade e tratamento com o usuário do serviço jurídico. Sentir-se valorizado faz toda a diferença e agrega valor.

Fica uma reflexão a todos que estão lendo, em algum momento vocês se esforçaram em pensar no usuário antes de criar algo? um contrato? uma petição?

 

 

 

[1] Imagem extraída do site da Margaret Hagan chamado  Law by design by Margaret Hagan. Disponível em:  http://www.lawbydesign.co/en/home/. A autora é referência na área de legal design, conhecida por ser a diretora do Legal Design Lab, da faculdade de Stanford.

[2] Ano passado participei do evento Law in Rio, promovido pela Escola de Direito da FGV-RJ, onde uma professora chamada Juliana Yue fez essa provocação em sua palestra sobre Legal Design e foi algo que me marcou imensamente já que escuto vários profissionais falando sobre inovação mas sem a reflexão sobre o momento histórico em que estamos inseridos. Pode parecer bobeira tal reflexão, porém perdi algum tempo realizando-a. A ordem das palavras interfere totalmente em sua conotação semântica. Isto porque quando penso em uma "mudança de era", entendo que estamos falando da alteração de um determinado período histórico caracterizado por situações particulares, por outro totalmente diferente. Porém, quando penso em uma "era de mudanças" tenho a impressão que já estou imersa em um período histórico cuja característica principal é a mudança. Isso me fez acreditar que a segunda é a mais adequada ao cenário atual.

[3] Reportagem publicada na revista Exame no ano de 2016. Disponível em:  https://exame.abril.com.br/carreira/10-competencias-que-todo-professional-vai-precisar-ate-2020/. Algum tempo depois de ter ligo esta reportagem, assisti uma palestra do professor Rafael Alves de Almeida, também da Escola de Direito da FGV-RJ, que estimulava justamente a reflexão sobre a necessidade do advogado ser criativo pois o surgimento de novos mercados, novas tecnologias e novas relações sociais demandam diferentes soluções.

[4] Este artigo foi inspirado na professora Ana Paula Ulandowisk Holtz, que foi a primeira pessoa que me falou sobre o tema legal design e em seu artigo "O que é Legal Design?". Disponível em:  https://medium.com/@ulaholtz/o-que-%C3%A9-legal-design-e5914f5a47ab.

[5] A política de privacidade utilizada pelo NUBANK é clara e objetiva. Disponível em:  https://nubank.com.br/contrato/politica-privacidade/.

[6] Desde já peço desculpas pelo trocadilho e neologismo, mas faz todo sentido já que o pensamento futuro que está sendo estimulado nada mais é do que uma necessidade no presente.

[7] Imagem feita por mim, pelo paint (exatamente, aquele programinha que ja vem baixado em todos os computadores). Sim pessoal, não precisamos de grandes ferramentas para fazer com que algo fique mais elucidativo.

[8] Quando se estuda sobre outras formas de solução e conflitos, os MASC's (meios adequados de solução de conflitos), muito se fala sobre a metáfora do iceberg. Em linhas gerais, todas as pessoas tem posições sobre determinados assuntos, contudo, as posições são somente a ponta do iceberg, ou seja, o que está visível. Porém, o iceberg tem um tanto de gelo submerso, este chamamos de interesses, ou seja, é algo que esta subjacente ao que é dito e diz respeito a suas reais necessidades. Por isto o profissional do direito deve ser empático com seus usuários.

[9] Me recordo de uma aula que participei uma vez, no momento não lembro se a temática era oratória ou comunicação assertiva, mas o professor (a) falou algo que eu nunca esqueci. Nos preocupamos tanto em aperfeiçoarmos nossa oratória, tendo diversos cursos que nos ensinam a melhorar nosso discurso e retórica, porém, já pararam para pensar que não há nenhum curso de "escutatória"? Um tanto quanto cômico não é mesmo? somos tão cobrados no mercado de trabalho a sermos bons oradores, porém, nenhum pouco estimulados a sermos bons ouvintes. Sobre isso, sabias palavras de Rubem Alves em seu texto chamado "A escutatória".

Comunidade Legal Hub
Mariane Siqueira
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Advogada com pensamento nada tradicional, empreendedora no direito, mediadora de conflitos, criativa, curiosa e inquieta por natureza. Apaixonada por inovação!

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