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Notas sobre o futuro (não) prometido da advocacia

Notas sobre o futuro (não) prometido da advocacia

Por uma coincidência do destino, nesta semana me vi conversando com colegas formados recentemente sobre perspectivas da carreira na advocacia, o estado em que a profissão se encontra e o que podemos buscar para nós e para quem tentamos ajudar em direção ao futuro.

Como quem já acompanha esta coluna está cansado de saber, esse é um assunto que me acompanha há alguns anos e, de vez em quando, alguém por alguma razão desconhecida decide ouvir o que tenho a dizer. Agradeço e sigo em frente. Desta maneira, tanto por como se deu a faísca para escrever a coluna de hoje quanto pelo interesse até agora imutável, acabo por imprimir notas pessoais nas considerações sobre o mundo que ajudamos a construir.

Felizmente, os peixes que persistem em seu nado gauche fora d’água podem contar com referências importantes, que não fogem de polêmicas e trazem consigo honrarias acadêmicas e profissionais, provando que mudanças são possíveis e bem-vindas . Um desses faróis de sanidade é, como frequentemente mencionado aqui, Richard Susskind.

Em seu livro Tomorrow’s Lawyers, ao tratar de fenômenos que perpassam nossa atividade, além de indagar sobre as competências que formarão o advogado do futuro, ele se debruça sobre a advocacia enquanto modelo de negócio e reflete sobre suas características enquanto organização de trabalho.

Segundo ele, tal organização se baseia, em larga medida, num sistema de cobrança em horas, que, além de opaco, limita a própria alavancagem da operação de bancas. Isso porque vincula sua receita à relação advogado/hora e – todos sabemos – o dia possui apenas 24 delas, de modo que o crescimento da organização é inviabilizado sem um aumento da força de trabalho que o acompanhe. Naturalmente, esse tipo de contratação incorre em inúmeros custos, diretos e indiretos, que reduzem a margem dos escritórios e sacrificam a eficiência econômica do modelo.

Todavia, Susskind sugere não olhar tal situação como presa no tempo, mas suscetível a vicissitudes estruturais da sociedade e do mercado, como a evolução tecnológica e aquilo que definiu como o “desafio do mais por menos”, isto é, o oferecimento de serviços em mesma (ou maior, se possível) quantidade e escala por valores menores, incentivando a busca constante pela redução de despesas com honorários advocatícios. Não é difícil, então, imaginar o tamanho da adversidade que teremos de enfrentar.

Desespero à parte, contudo, Susskind aponta sua lanterna para uma possível saída: analisar com desapego os jobs-to-be-done de nossos clientes. Observar não o método pelo qual nosso mundo se acostumou a dimensionar e equalizar seus conflitos, mas sim onde residem sua origem, resolução ou prevenção.

Nesse sentido, Susskind comete o “sacrilégio” de perguntar se os problemas tradicionalmente geridos pela advocacia e tribunais precisam mesmo ser conduzidos por tais entidades. Para responder essa questão, trago ao debate algumas provocações que vem sido feitas por Jordan Furlong em seu blog desde o início da crise do COVID-19.

Essa contextualização se mostra oportuna à medida que percebe o quão despreparados estavam grande parte dos serviços jurídicos (incluindo-se o próprio sistema judiciário) antes do surto viral. Para tanto, basta ver a dificuldade que inúmeras organizações tiveram ao implementar, de forma emergencial, sistemas de trabalho remoto.

Todavia, Furlong não se limitou a apontar o dedo para os problemas (o que já seria meritório per se), trazendo possíveis soluções estruturadas que vem sendo aplicadas mundo a fora. Ainda que digam respeito à experiência de algumas províncias do Canadá e estados dos EUA, elas podem sinalizar mudanças viáveis na forma de se atender os jobs-to-be-done citados acima.

Como nos mostra o alastramento do coronavírus e sua infinidade de implicações, as formas de organização de um escritório de advocacia como as relações que ele costura com clientes estão sujeitas a mutações importantes com o avanço da tecnologia, a evolução das relações humanas e, mais do que nunca, com um novo olhar sobre a necessidade de presença física para realização de certas atividades.

Ainda que a dureza imposta a todos durante este período já incomode o suficiente, de nada adiantará para nosso crescimento se não reconhecermos suas lições. Uma delas, ouso dizer, é a compreensão sobre o desacoplamento conceitual em relação à necessidade/anseio que se busca satisfazer e a forma pela qual isso ocorre. As pessoas continuarão tendo seus conflitos, mas a forma pela qual eles se resolvem (quando se resolvem) pode mudar, a depender de uma série de fatores interrelacionados, como a economia e a cultura de cada país.

Ainda que soe ingênuo querer enfrentar tais moinhos de vento neste momento sombrio, sobretudo num país que há muito sufoca tentativas de modernização da advocacia, não custa tentar. Mesmo que a realidade nos brinde com distrações de toda sorte, como a preocupação que vem sendo demonstrada pelas Seccionais da Ordem dos Advogados do Brasil com eventos virtuais que vem sendo promovidos por advogados e advogadas durante esta época de isolamento social. Aparentemente e sem qualquer ironia de minha parte, as lives incomodam mais do que o gradual afastamento de nossa atividade das pessoas e organizações que buscam através dela resolver seus problemas.

Mesmo assim, em consulta pública promovida pelo Conselho Federal da OAB sobre as regras que disciplinam a publicidade na advocacia, dos 13.327 advogados e advogadas que a responderam, 83% manifestaram serem a favor da flexibilização das regras e 79% apoiam a utilização de plataformas digitais para intermediação e divulgação de serviços. O recado foi dado; basta saber se será levado em consideração, ainda que a realidade demonstre sua irritante mania de se impor independentemente de nossa vontade.

Em resumo, esse mosaico de fatos, leituras e reflexões deu a tônica das conversas que inspiraram esta coluna e que, espero, venham a se tornar mais comuns a cada dia. Ainda que debatamos sobre a digitalização da advocacia, isso ainda ocorre em guetos e o mundo continua a girar a despeito de nossa indolência.

Comunidade Legal Hub
Paulo Kroeff Baggio Silva
Paulo Kroeff Baggio Silva Seguir

Advogado graduado pela UFPR e pós-graduado em Direito Societário pela FGV/SP e pela UNICURITIBA. Suas experiências profissionais incluem operações de M&A envolvendo companhias-alvo no Sul do Brasil e desenvolvimento de modelos de negócio de startups.

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