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Investimento Ecologicamente Consciente: Uma Quimera?

Investimento Ecologicamente Consciente: Uma Quimera?

No dia 23 de junho, o jornal Financial Times relatou que um grupo de investidores composto por mais de 20 instituições financeiras do mundo advertiu em carta ao governo brasileiro que o desmatamento no país poderia comprometer seu acesso aos mercados internacionais de crédito.

Na missiva, aduziu-se que, em razão do aumento dos índices de derrubada de floresta amazônica desde a eleição de Jair Bolsonaro, tornou-se mais do que nunca necessário garantir um ambiente regulatório estável e previsível e promover políticas alinhadas com a sustentabilidade.

Como não poderia deixar de ser em 2020, esse episódio, ao delinear a importância atribuída por lideranças do mercado financeiro à preservação ambiental, jogou luz em um tipo de investimento que vem ganhando notoriedade, que é a aquele destinado a iniciativas ESG (environment, sustainability and governance), já retratado em nossa coluna recentemente, e muitas vezes denominado de investimento verde quando voltado a contrapartidas que exigem práticas sólidas de preservação do meio ambiente.

Nesse sentido, a repercussão da publicação dessa carta por diversos canais de imprensa evidencia o peso assumido pela necessidade de adoção de modelos de negócio sustentáveis dentro da economia mainstream e, sobretudo, da opinião pública. Contudo – e para que possamos manter a característica questionadora desta coluna –, dois artigos recentes publicados pela The Economist colocam pontos de interrogação em cima da real efetividade das intenções de fundos e bancos que se aventuram nesse tipo de investimento.

O primeiro deles, publicado em 20 de junho, questiona até que ponto o mercado financeiro pode impactar as mudanças climáticas, após analisar dados de emissão de carbono de 5.000 empresas com ações listadas em bolsas de valores, que concentram entre elas 90% do valor dos mercados de ações mundo afora.

Dentro desse recorte, 76% das maiores emitentes possuem investidores que detêm a maioria de suas ações, sendo que essa maioria acionária também é altamente concentrada. Isso se observa no fato de que as 250 maiores instituições financeiras do mundo dominam cerca de 86% das emissões das empresas controladas por um só investidor. A título de exemplo, por essa medida, a BlackRock detém participação em 10% das empresas com as maiores emissões de carbono nessa amostra.

Essa concentração de participação massiva em empresas poluidoras pode se dar em firmas que emitem quantidades enormes de carbono, bem como àquelas que, ainda que não sejam grandes emitentes de forma direta, estabelecem cadeias de valor altamente poluidoras. Tal posição de investimentos se contrapõe à parcela das carteiras administradas por grandes fundos e bancos que se destina a investimentos sustentáveis, que é atualmente ínfima.

Como exemplo disso, o banco JPMorgan estima que ao menos USD 3 trilhões de ativos administrados por investidores institucionais o sejam por fatores de ESG, mas esse número representa apenas 4% dos ativos administrados por esses agentes. Nesse contexto, mais do que tentar mudar as ações das empresas no centro da crise climática, a maioria dos investimentos verdes procura recompensar e incentivar empresas em todos os setores a emitir menos ou ajudar outras empresas de sua cadeia a fazê-lo.

Por sua vez, o segundo artigo da The Economist aqui mencionado, publicado em 18 de junho, pondera sobre o potencial dos investimentos verdes, levando em conta a retórica em torno deles, que muitas vezes se vale de pensamento opaco, marketing arrogante e dados ruins.

Estimativas feitas pela revista sugerem que empresas com ações listadas em bolsas de valores, excluindo-se aquelas controladas por Estados, correspondem entre 14% e 32% do total de emissões globais, dependendo do indicador utilizado. Esse número revela um alcance limitado das decisões de administradores de fundos globais. Como bem aponta o periódico, não é como se detivessem o poder de influenciar diretamente os responsáveis por usinas de carvão na China ou produtores de petróleo no Oriente Médio.

Paralelamente, algumas autoridades bancárias na Europa esperam cortar emissões de forma indireta ao impor testes de stress climático que penaliza a exposição a projetos “sujos” de instituições que concedem empréstimos e seguros. Contudo, as evidências até este momento sugerem que isso não fará muita diferença sem que haja mudança nas regras de emissão de carbono.

Mas por quê?

O efeito na solvência dessas empresas é pequeno porque apenas uma fração de seus ativos está investido em combustíveis fósseis ou projetos cujo valor é sensível a riscos físicos da mudança climática, como enchentes, após um desconto de 10 a 15 anos. Enquanto isso, os valores sendo investidos em energia renovável e infraestrutura correspondem apenas à metade do que seria necessária para manter as temperaturas do globo dentro do limite de 2ºC comparado a níveis anteriores à Revolução Industrial.

Além do curto alcance atual dos investimentos verdes, a divulgação de dados corporativos sobre emissões é tão precária que seu monitoramento preciso se revela praticamente inviável, de modo a confundir líderes do setor, além de seus clientes. Tal opacidade de informações chega ao ponto de alguns índices e portfólios que afirmam ter uma pegada de carbono negativa possuírem valores mobiliários de empresas que são grandes poluidoras.

Por último, o artigo aponta que acionistas que podem influenciar empresas a medir suas emissões corretamente podem não ter incentivos financeiros fortes o suficiente para que levem a cabo atitudes mais significativas, como fechar campos de extração de petróleo ou aumentar seu investimento em fontes experimentais de energia. Isso significa que investidores que clamam por decisões favoráveis à preservação do meio ambiente podem não ter o peso suficiente para determinar como as empresas se comportam.

Para contornar esse cenário e tornar efetiva a intenção ambiental de fundos de ESG, a revista recomenda que governos devem forçar empresas a aprimorar as informações que divulgam ao mercado. Além disso, administradores de ativos devem estabelecer objetivos coerentes e mensuráveis, de modo a incentivar investidores e bancos a redirecionar capital de atividades poluidoras para limpas e desenvolver instrumentos que permitam às empresas delimitar e negociar o preço do carbono.

Esse “lado B” de uma notícia que colocou o Brasil novamente sob os holofotes globais, apesar de contemporizar certas ameaças, acaba por enriquecer o debate sobre a participação do investimento verde que combate as mudanças climáticas. A contextualização do discurso presente na opinião pública e dos dados da indústria financeira não esconde, porém um lado positivo: quem poderia pensar que um dia a governança de bancos e fundos estaria sendo alçada à condição de agente de mudanças mundo afora?

Comunidade Legal Hub
Paulo Kroeff Baggio Silva
Paulo Kroeff Baggio Silva Seguir

Advogado graduado pela UFPR e pós-graduado em Direito Societário pela FGV/SP e pela UNICURITIBA. Suas experiências profissionais incluem operações de M&A envolvendo companhias-alvo no Sul do Brasil e desenvolvimento de modelos de negócio de startups.

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