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Enxergar além do óbvio

Em nossa formação jurídica, pouco ou nenhum espaço há para a criatividade. Salas de aulas que remontam à era industrial, estrutura hierarquizada que lembra mais um quartel do que uma sala de aula, onde a troca é essencial. 

 

Não à toa, Paulo Freire, em seu livro Pedagogia do Oprimido conceitua a concepção bancária da educação, pela qual o educador deposita todo seu conhecimento no educando, de modo a reforçar as relações de poder, o que inibe qualquer forma de criatividade. O educando apenas deve ouvir o professor e aprender exatamente o que é exposto, sem espaço para críticas e sem um convite para entender e transformar realidade.

 

O resultado dessa prática educativa é de se perceber no dia a dia. Profissionais do direito mecanizados, acríticos, com nenhum poder para mudar a realidade em que estão envoltos. De acordo com Foucault, na microfísica do poder, os profissionais têm uma responsabilidade política no seu labor. O dever de transformar positivamente a realidade em que se encontram. Esse poder-dever (para delírio dos causídicos), é praticamente esterilizado na formação do profissional de hoje.

 

Umas das habilidades primordiais de um bom product designer, de acordo com Tony Fadell, pupilo de Steve Jobs e “pai do Ipod”, é enxergar além do óbvio. O fundador da Apple instiga seus funcionários a permanecer “crianças”. As crianças são criativas por natureza, a questão é como manter essa característica com o passar do tempo, diante de tantas responsabilidades e estímulos da vida cotidiana.

 

Para nossa sorte, existem maneiras muito mais interessantes de se estimular a criatividade e o senso crítico no dia a dia profissional. Uma metodologia muito interessante que nos foi presenteada por uma designer de Produto renomada, Teresa Torres. Ela criou uma estrutura pedagógica para encontrar oportunidades em problemas. 

 

O nome da estrutura é “Árvore Oportunidade Solução”. Ao invés focarmos apenas em uma solução para cada problema, a designer nos convida a encontrar oportunidades antes da solução. Para fins didáticos, melhor exemplificar.

 

Primeiro, o exemplo clássico, que nada tem a ver com o direito. As pessoas quando querem colocar um quadro na parede se deparam com um problema. Até mesmo para objetos leves seria necessário furar a parede com uma furadeira, que é cara, faz barulho e sujeira. 

 

Por meio da “Opportunity Solution Tree” é possível verificar que o desejo dos consumidores nesse caso pode ser simplesmente pendurar algo na parede de maneira rápida e não permanente. Assim surgiu os adesivos que conseguem fixar objetos nas paredes de maneira rápida, limpa e barata.

 

Agora um exemplo no mundo jurídico. Suponha-se que uma empreendedora se sensibilize com o problema de discriminação de gênero e queira facilitar o acesso à justiça para as vítimas. Ao utilizar este “framework”, a solucionadora do problema é convidada a entender qual o sentimento/valor que estão atrelados a este problema. 

 

Desta maneira,é possível enxergar os sentimentos subjacentes ao problema, de modo a abrir um campo para explorar novas soluções. É um convite a pensar soluções disruptivas para problemas do dia a dia.

 

Quem diria que pedagogia, sociologia e design de produto poderiam dialogar com o Direito? Fica o convite para que vocês busquem soluções interdisciplinares para os problemas do dia a dia, o que como profissionais jurídicos, faz parte de nossa rotina.



 

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