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AI (Inteligência Artificial) - novas habilidades jurídicas e a supremacia quântica

AI (Inteligência Artificial) - novas habilidades jurídicas e a supremacia quântica

 

Há praticamente 80 anos, o genial Charles Chaplin apresentava ao mundo o seu célebre discurso no filme O Grande Ditador (1940), nos lembrando que:

Mais do que máquinas precisamos de humanidade.

Mais do que inteligência precisamos de afeição e doçura.

Sem essas virtudes a vida será de violência e tudo estará perdido.

 

A notícia do Google sobre AI e sua democratização

Há aproximadamente 8h, nesse dia 23 de outubro de 2019, o Google anunciou e publicou oficialmente na revista científica Nature as suas pesquisas e experimentos resultantes na supremacia quântica[2], tecnologia que possibilitará um novo salto evolutivo da ciência e das pesquisas focadas em Inteligência Artificial em escala nunca vista na história da humanidade e com futuro acesso para todos, ou seja, uma verdadeira democratização do acesso a Inteligência Artificial conforme sustentou o CEO do Google Sundar Pichai em entrevista para a MIT Technology Review.[3]

O dilema entre a evolução da AI e as habilidades comportamentais exigidas pelo mercado profissional

Aparentemente há uma grande contradição referenciar Charles Chaplin no início de um artigo sobre Inteligência Artificial[4] e novas habilidades exigidas do profissional do direito, especialmente nesse momento histórico de divulgação da supremacia quântica.

Entendemos que se trata de um conflito aparente e não real. Se atentarmos ao discurso de Charles Chaplin, ele nos remete para a necessidade de humanidade, afeição e doçura, ou seja, tudo que podemos encontrar nas competências atualmente exigidas de soft skills que resultam no cuidado com o outro, na busca do atendimento de uma verdadeira experiência positiva.

Ao longo das últimas décadas, talvez séculos, o direito e o profissional do direito sofreram poucas alterações quanto a foram de execução do seu trabalho, especialmente quanto ao que era esperado desse profissional. Vale dizer, do que era exigido do profissional do direito.

Será que realmente estamos frente a novas habilidades? Ou seriam apenas, novas habilidades ao profissional do direito? A Revolução Industrial e todas as evoluções tecnológicas que seguiram, atingiram todo o setor da indústria e boa parte do setor de serviços. Mas, o direito, não.

Não identificamos qualquer alteração drástica na forma de prestação do serviço, onde o profissional tinha que ser um técnico da lei, inclusive, cunhando a expressão “operador do direito”.

Não há mais "Operadores do Direito", mas sim profissionais estratégicos.

Quem me conhece, sabe que há tempos tenho criticado fortemente essa expressão (“operador do direito”), muito embora, no passado, já tenha me utilizado da expressão sem uma maior reflexão.

Não somos operadores de nada! Somos estratégicos. Essa é a grande diferença entre realizar um trabalho puramente repetitivos e de pura aplicação da norma, para um trabalho realmente estratégico alinhado aos objetivos da empresa ou da pessoa natural. É a conjugação de uma série de conhecimentos e competências que vão muito além do estudo técnico da norma.

Se pensarmos um balanço contábil empresarial, significa deixarmos de figurar na linha de custo para figurarmos na linha de investimento, preferencialmente, investimento estratégico ou P&D (Pesquisa e Desenvolvimento).

As habilidades que você precisa desenvolver para permanecer à frente do mercado jurídico

 Para atingir essa nova demanda exigida ao profissional do direito, é fundamental o desenvolvimento de diversas habilidades e competências que vão muito além do direito, tais como: Inteligência Emocional, negociação, design, UX (experiência do usuário), contabilidade, finanças, conhecimento das teorias de administração e gestão e, principalmente, comunicação empresarial. Sim, comunicação. Como técnicos que somos, em regra, não temos a habilidade da comunicação com clareza e concisão.

No mesmo sentido, é muito comum observarmos a crítica a falta de atenção com a experiência do usuário, especialmente do usuário do serviço jurídico.

Efetivamente, quantas vezes você já se questionou como está a experiência de seus clientes internos e externos? Será que realmente estamos dando a devida atenção à tal habilidade

 E a Inteligência Artificial, como fica nessa história toda? Especialmente se considerarmos a supremacia quântica onde no novo computador quântico realizará em poucos minutos algumas operações que demorariam milhares de anos para serem concluídas nos supercomputadores conhecidos até então?

Como nos lembram os estudiosos do tema:

“Apesar de a Inteligência Artificial ser uma das mais novas áreas da pesquisa intelectual, suas bases surgiram há milhares de anos. Ao estudar Inteligência Artificial é útil ter um entendimento dos fundamentos de diversas outras áreas, principalmente filosofia, linguística, psicologia e biologia.”[5]

Ou seja, é necessário, termos o cuidado com o outro. É necessário abandonarmos a atual forma do ensino focado em blocos isolados de “disciplinas” ou “grade de aulas” para, focarmos no aprendizado centrado na solução de problemas, problemas da vida real, problemas da vida como ela é!

É necessário termos humanidade, termos afeição e termos doçura. A Inteligência Artificial pode representar uma poderosa ferramenta para alcançarmos essas competências ou habilidades. Ao utilizarmos de ferramentas que nos permitam realizar análises sobre dados e informações e automatização de atividades nitidamente repetitivas e burocráticas, teremos mais tempo para dedicar ao raciocínio crítico, à criatividade e à inovação. Especialmente nesse momento em que a computação quântica se torna uma realidade capaz de viabilizar análises por Inteligência Artificial em velocidade nunca imaginada na história da humanidade.

Como alinhar a AI à nova atuação e papel no profissional jurídico

 Uma das maiores críticas à realidade enfrentada no final do século XX e início do século XXI é justamente a falta de tempo para reflexão e para o desenvolvimento de inovações, além da atenção ao outro (experiência do usuário).

Devemos utilizar as ferramentas tecnológicas em benefício da pessoa e do sujeito de direito, em benefício da forma de trabalhar, tornando o trabalho jurídico direcionado ao desenvolvimento da sociedade e da atividade empresarial. Como diz um comercial de determinado portal de vendas, praticando o desapego das atividades burocráticas, repetitivas e sem qualquer viés de raciocínio crítico e/ou inovação.

 Com o avanço exponencial da tecnologia e da supremacia quântica, devemos deixar de encarar essa nova realidade como uma ameaça, um desafio ou um obstáculo. Devemos encarar esse momento da história com uma grande e verdadeira oportunidade de evolução e desbravamento de novas fronteiras. Tal como nos lembra Platão em seu Mito da Caverna, deixemos as sombras de lado e vamos desbravar o mundo que está a nossa frente tão claro quanto a luz solar.

 


[1] Professor e Advogado de Direito Privado, direito das obrigações, direito dos contratos, direito digital, direito do consumidor, direito empresarial, proteção de dados e privacidade. Doutor (2017) e Mestre (2012) em Direito Civil pela PUC/SP. Pós-graduado lato-sensu em Direito Processual Civil pela FMU (1998). Especialista em Direito dos Contratos (2007), Direito das Novas Tecnologias (2004) e Direito Tributário (2002) pelo CEU/IICS, Especialista em Gestão de Serviços Jurídicos pela FGV-Law/SP e Especialista em Gestão de Departamentos Jurídicos pelo Insper. Advogado e Consultor Jurídico no Estado de São Paulo. Coordenador do Núcleo Temático de Direito Digital da Escola Superior de Advocacia da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção São Paulo (2019-). Diretor de Relações Institucionais do IASP, Instituto dos Advogados de São Paulo para os triênios 2013-2015 e 2016-2018. Professor dos programas do pós-graduação no Insper Direito, IBMEC/SP, FADI, UNIFOR, Escola Paulista da Magistratura, UNIVEL e CEU Law School. Professor do programa de graduação em direito da FADITU (2019- ). Professor convidado e palestrante em diversas universidades, entidades de classes, associações e institutos nacionais. Autor de artigos, capítulos de livros e livros jurídicos.

[2] https://www.technologyreview.com/s/614608/google-ceo-quantum-supremacy-interview-with-sundar-pichai/

[3] https://www.technologyreview.com/s/614608/google-ceo-quantum-supremacy-interview-with-sundar-pichai/

[4] Em inglês conhecido pela sigla de AI – Artificial Intelligence

[5] COPPIN, Bem. Inteligência artificial. Tradução e revisão técnica Jorge Duarte Pires Valério. Rio de Janeiro: LTC, 2013 (versão eletrônica)

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