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ADVOGADO DO SÉCULO XXI, ser ou não ser?

ADVOGADO DO SÉCULO XXI, ser ou não ser?

Há cem anos Sigmund Freud publicou a obra “O mal-estar na civilização”, em que conceituou as relações humanas como constantes trocas, você sempre dá algo de valor em troca de outro. E o dinheiro neste contexto foi inventado para facilitar essas trocas. De todo modo, naquela época as pessoas para viver em sociedade abriam mão de parte de suas liberdades em prol de maior segurança. Será que essas afirmações são válidas no século XXI? A tecnologia na advocacia nos trará liberdade ou insegurança? Esse não é um debate simples, primeiro porque se trata de um exercício de previsibilidade, e aqui, até mesmo o onipresente Google tem limitações. Segundo porque o assunto é polêmico, pois é certo que a tecnologia, principalmente a Inteligência Artificial, substituirá o conhecimento humano. Esse tipo de tecnologia já escreve livros, analisa sentimentos e padrões de comportamento humano, realiza diagnósticos médicos com maior precisão e profere sentenças. As faculdades não estão preparadas para essa grande mudança, e seus egressos, bacharéis em direito (que totalizam 4 milhões), também não, em sua maioria. Advogados bem estabelecidos e menos habituados a tecnologia tentarão manter seus status quo, enquanto conseguirem resistir as mudanças. Os mais jovens e os atentos terão buscar alternativas no novo mercado, e para isso, penso ser fundamental um mindset. Abaixo listo dicas práticas para provocar esse ponto de virada profissional:

  1. Obsolescência do conhecimento – O conhecimento perde valor a cada dia. No início de minha carreira profissional, há dezoito anos, pude perceber que teses jurídicas perduravam por décadas, depois anos e hoje apenas meses. Uma tese tributária é conhecida rapidamente e também rechaçada com igual velocidade pelo Fisco. O conhecimento adquirido em cursos de especializações, fiz duas, nos serviam por anos, e hoje, por conta da velocidade das transformações, o retorno é menor. Sendo esse um dos principais motivos da redução de número de alunos matriculados em especializações no país. É preciso alterar a forma de aprendizado, de lento e repetitivo, para rápido e contínuo (lifelong learning). Aprofundar conhecimento é necessário, mas será feito no momento em que for escolhida uma especialidade. Além disso, se antes o profissional do direito era valorizado porque conhecida todas as leis e regramentos, no futuro isso não será mais diferencial. Ao invés de decifrar as leis os profissionais deverão aperfeiçoá-las. No futuro, advogados irão evitar conflitos pela mediação, corrigir normas inconstitucionais com a ajuda de simulações computacionais e exercer uma carreira muito mais conectada a prevenção e predição.
  2. Menos processos judiciais – As reformas legislativas, como é o caso da trabalhista, já reduzem o número de processos judiciais no país. A bola da vez é a revolução tributária. Porém, com o uso crescente de tecnologia será possível realizar: julgamentos simultâneos (TJMG julgou 280 recursos, com o uso de IA), softwares de restrição de recursos (como é o caso do Victor no STF) e sentenças proferidas com a ajuda de Inteligência Artificial. Tais inovações irão reduzir drasticamente o número de processos judiciais, e esse impacto será percebido em todas as áreas. Por outro lado, existe um novo mercado para profissionais consultores, isto é, que focam em opiniões legais, pareceres, realizam compliances fiscais, trabalhistas, etc. Esse novo mercado premia o profissional que busca soluções preventivas, não ficando limitados a mera correção dos problemas. Tem-se aqui um olhar de proteção da saúde financeira dos clientes. Neste cenário importante que o profissional adquira outras habilidades, tão ou mais importantes do que o conhecimento legislativo: oratória, condução de reuniões, mediação e arbitragem, pensamento colaborativo. Além disso, conhecimento como economia, finanças, administração, psicologia, constelação familiar, poderão ser extremamente úteis, sobretudo porque o conhecimento mais gerencial e complexo será indispensável. Esse olhar interdisciplinar pode ser facilmente adquirido por meio de cursos de pequena duração, livros e demais mentorias. O diploma neste tipo de segunda formação não é necessário.   
  3. Busque parcerias – Advogado em sua maioria é individualista e isso trará prejuízo. Somos seres coletivos. Quando nascemos precisamos de outro ser humano para sobreviver. Essa máxima será aplicada, na minha visão, aos profissionais da área do direito em tempos com menos processos judiciais. Sem boas parcerias e trabalhos colaborativos o profissional terá muita dificuldade de enfrentar a “revolução das máquinas”. Sabe-se que médicos experientes são superados em níveis de acerto de diagnósticos para a inteligência artificial, isso porque em instantes ela analisa históricos de milhares de outros pacientes. Porém, a máquina é superada pela inteligência coletiva, que é obtida pela união e debate entre os médicos em busca de uma solução. Ou seja, o trabalho organizado e em equipe prepondera sobre a análise computacional. Recomendo que busque ecossistemas de inovação, trabalhos em parcerias e discussões em grupo. Não é simples trabalhar em equipe (quem não sofreu com o colega que só queria colocar o nome no trabalho), mas isso mais do que nunca será um grande diferencial em um mundo altamente competitivo. Dividir para conquistar, como novo lema. Falarei sobre isso na próxima oportunidade.   
  4. Amplie fronteiras – Use a tecnologia para atender clientes mais distantes. Sou advogado há 18 anos e muitos dos meus clientes insistiam em reuniões presenciais. Fiquei inseguro quando tive que passar meses em Portugal para concluir meus estudos, mas quando utilizei a tecnologia em meu favor, whatzap, Skype, etc, descobri que era possível ampliar meus serviços para outros territórios. Tempo mais do que nunca significa dinheiro. Ganhe tempo com reuniões virtuais e busque outros clientes além de sua cidade.    
  5. Especialistas em alta – Nunca conheci um profissional bem sucedido que não fosse especialista, motivo pelo qual optei pela área tributária. Em tempos de superficialidade no conhecimento, copiar e colar e generalismo, a diferenciação entre os profissionais será feita pela especialidade. Quando falo isso não estou destacando o título de pós-graduação,  e sim o conhecedor do assunto específico. Ninguém é bom em tudo, e isso torna-se evidente quando o cliente possui conhecimento prévio disponível na internet. A especialidade é adquirida com o aprendizado empírico, que também se conecta com a entrega de resultados comprovados, erros aprendidos, etc.

O advogado não será substituído no Século XXI, mas os conhecimentos dos séculos anteriores encontrarão rápida obsolescências. Com o uso de tecnologia de peticionamento eletrônico, agendamento de prazos, identificação de erros sistêmicos em contabilidade, haverá alteração de funções profissionais. Menos trabalho repetitivo e rotineiro para mais análise, mediação e aconselhamento. Com maior tempo, haverá maior liberdade para que os profissionais aprimorarem habilidades interacionais, cognitivas e emocionais. Isso não significa dizer que o advogado será uma espécie de psicólogo. Mas, assim como fez o médico Freud (que identificou doenças psíquicas), o advogado deve investigar novas causas e buscar soluções em outras áreas do conhecimento, visando o bem-estar dos clientes. Isso abrirá uma nova área do saber jurídico. 

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