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A Nova Economia e o Mundo Real - Notas sobre o Caso WeWork

A Nova Economia e o Mundo Real - Notas sobre o Caso WeWork

Convido o leitor a refletir sobre uma hipotética proposta de investimento em uma startup cuja due diligence aponta as seguintes práticas:

  • Transações com partes relacionadas, tais como o pagamento ao seu CEO, de US$ 5,9 milhões pela marca que distingue a própria empresa, quando de uma reorganização societária. Note-se que tal reestruturação criou uma LLC (tipo de sociedade de responsabilidade limitada dos EUA) em que foram alocados os ativos da empresa investida. Desta forma, os investidores, contudo, aportariam recursos numa outra sociedade que teria participação na LLC, de modo a reduzir o impacto tributário incidente sobre os sócios da LLC/fundadores da startup.
  • A empresa havia contratado diversos parentes de seu CEO, bem como havia designado a esposa deste para ser um dos três membros de um conselho que viria a substitui-lo, em caso de sua morte ou invalidez permanente ao longo da próxima década.
  • O CEO ainda detinha três tipos diferentes de ações que garantiam a ele a maioria de votos em deliberações sociais, além de que ele mantinha seus direitos mesmo que alienadas ou doadas suas respectivas ações, ao invés de estas se converterem em ações ordinárias.

Essa é a história da WeWork, na qual creio ser possível observar um suco concentrado de práticas que passam longe daquilo que é entendido como boa governança corporativa. Mesmo assim, seu CEO, Adam Neumann, foi capaz de cativar o mercado de modo a elevar o valuation da companhia ao patamar de US$ 47 bilhões antes de sua tentativa frustrada de seu IPO, ou seja, da oferta de suas ações em bolsa de valores.

A proposta deste texto é, portanto, analisar brevemente aspectos do crescimento do WeWork e os motivos e condutas que podem ter contribuído para impedir que suas ações fossem oferecidas ao mercado aberto e para a miríade de consequências negativas que vem surgindo deste então.

Primeiramente, Ben Thompson, autor do site Stratechery, que analisa estratégias dentro dos mercados de tecnologia e mídia, além do impacto da tecnologia na sociedade, nota que diversas afirmações da WeWork sobre seu modelo de negócio a distanciam de características comuns a uma empresa de tecnologia. Tais empresas baseiam suas operações em software, que cria ecossistemas, tem zero custo marginal, é aperfeiçoado com o tempo, oferece alavancagem infinita e proporciona operações com zero custo de transação.

A WeWork, por sua vez, alega possuir um ecossistema baseado em software que conecta empresas e trabalhadores em diversos locais, mas parece difícil de encontrar evidências de que isso seja um fator nuclear para o negócio como um todo. Além disso, paga um grande percentual de sua receita em aluguel, incorrendo em alto custo marginal; está constrita pelo número de locais que constrói ou opera, limitando sua alavancagem; requer consultas customizadas até para locações de uma só pessoa e depende fortemente de corretores para lidar com empresas maiores, implicando diversos custos de transação.

Dentro desse panorama, a empresa parecia depender primariamente de um acesso a capital sem precedentes, o que poderia ter bastado à manutenção de seus índices de crescimento, mas não significaria necessariamente se tratar de empresa de tecnologia. É nesse contexto de injeção intensa de recursos que alguns investidores tomaram as previsões messiânicas de crescimento como verdades absolutas (como, por exemplo, a de que todas as estações de trabalho do mundo representavam o mercado potencial da WeWork) a exemplo do SoftBank, sedento por empresas de alto risco, ignorando riscos de toda sorte.

As estratégias de “crescimento a qualquer custo”, comuns em empreendimentos que recebem aportes via venture capital e private equity, todavia, nem sempre funcionam com mercados abertos. Isso porque as contingências apontadas no início do texto – e que não assustaram o SoftBank – acabaram por gerar apreensão em investidores institucionais em roadshow pré-IPO, a exemplo do que esclarece essa matéria da CNBC.

Embora inicialmente cínico às afirmações místicas de Adam Neumann, que veio posteriormente a sofrer acusações de abuso de drogas, de que a missão da WeWork era elevar a consciência do mundo (seja lá o que isso signifique), mais do que simplesmente prover escritórios bem acabados com cerveja à vontade, o mercado se viu obrigado a encarar a realidade quando se deparou com a situação financeira, contratual, societária, contábil e tributária da empresa.

Com a dilapidação do valuation atribuído à The We Company, caindo de US$ 47 bilhões para US$ 8 bilhões, após o aumento da participação do SoftBank para 80%, visando cobrir as perdas da companhia, como analisa a The Economist, investimentos de estágios médio a tardio foram prejudicados, assim como empregados a quem a companhia outrora havia outorgado opções de compra de ações.

Como se percebeu, o componente de boas intenções manifestadas por Neumann se viu insuficiente para manter a confiança na empresa. Conforme argumentado pelo Financial Times, mesmo numa época em que as maiores companhias dos EUA se propõem a repensar a forma de medir o sucesso empresarial, talvez seja preciso que uma empresa ainda cumpra seu objetivo básico de auferir lucro, antes de pensar em sua missão e propósito de impacto a tantos outros stakeholders, como comunidades e meio ambiente.

Em vista do banho de água frio que a desvalorização das ações da WeWork representou a seus investidores, Rob Siegel, professor da Stanford Graduate School of Business e sócio da XSeed Capital, em matéria do Business Insider, aponta que o otimismo gerado a partir de um modelo de negócio suspostamente “disruptivo” fez com que investidores fechassem os olhos às práticas duvidosas mencionadas acima.

O resultado dessa montanha-russa corporativa começa a ficar claro à medida que o tempo passa. Como mostram o Washington Post e o The New York Times, especula-se que 4 mil empregados (um terço da força de trabalho da We Work) poderão ser demitidos até 2020. Como se isso não bastasse, os trabalhadores que possuíam opções de compra de ações da empresa, viram seu valor virar pó em poucos meses e hoje se valem de ações judiciais contra a antiga diretoria e conselho de administração por abuso do controle da The We Company, como bem revela a revista Fortune.

Aparentemente, a conta da negligência chega e o mundo real bate à porta, independentemente da quantidade de dinheiro jogada numa empresa com fundamentos deficientes. Antes os indícios, plenamente passíveis de identificação em due diligence, tivessem sido levados um pouco mais a sério.

Comunidade Legal Hub
Paulo Kroeff Baggio Silva
Paulo Kroeff Baggio Silva Seguir

Advogado graduado pela UFPR e pós-graduado em Direito Societário pela FGV/SP e pela UNICURITIBA. Suas experiências profissionais incluem operações de M&A envolvendo companhias-alvo no Sul do Brasil e desenvolvimento de modelos de negócio de startups.

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