[ editar artigo]

A ÉTICA NA ERA TECNOLÓGICA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

A ÉTICA NA ERA TECNOLÓGICA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Vou iniciar fazendo a advertência de que o tema é polêmico e que não tenho a intenção de convencer ninguém do meu ponto de vista. Porém, é necessário trazer esse assunto à discussão uma vez que o crescimento exponencial da tecnologia e da inteligência artificial (IA) é real e vem a cada dia tomando conta (literalmente) de nossas vidas.

Um exemplo bastante simples de como a IA faz parte do nosso dia a dia e pode ser notado facilmente por qualquer um são as propagandas direcionadas nas plataformas digitais. É comum ouvir as pessoas dizendo: “mas eu estava pensando nisso agora mesmo!”, quando veem um anúncio de um produto específico. Não é mera coincidência, mas a atuação dos algoritmos usados pela IA para identificar padrões de comportamento e enviar exatamente aquilo que elas estavam procurando e, bingo, o usuário irá comprar por impulso.

Chatbot e Voicebots também já são bastante utilizados no Brasil e alguns já conseguem reconhecer o tom de voz do cliente que está ficando irritado e assim transfere a ligação para um humano, ou seja, em algumas ocasiões já não é possível distinguir quando se está falando com uma máquina/um robô ou um humano ao telefone.

Do outro lado do mundo, no entanto, os costumes são bastantes diferentes. No Japão já há casamentos entre robôs e humanos e até mesmo entre robôs[1], o que para nós ocidentais é algo bastante incomum. Ressalto que o casamento com robôs também não é regulamentado por lá, portanto não é juridicamente válido.

A Replika, empresa de norte-americana de IA, criou um chatbot para conversar e consolar seres humanos. A ideia nasceu da sua fundadora que perdeu um amigo próximo em acidente de carro e utilizou as todo o histórico mensagens trocadas com ele e inseriu em um chatbot.

Até aqui tudo bem apesar de alguns fatos como casamento entre robôs ou casamento entre robôs e humanos soar estranho para nós. Por outro lado, aqui no Brasil o Replika já tem vários adeptos segunda dados da plataforma App Annie[2].

Contudo, há outros fatos que além de estranhos trazem questões polêmicas. A robô Sophia[3], por exemplo, recebeu cidadania saudita, em 2017, das mãos do xeque na Arábia Saudita. Sophia é muito popular nas redes sociais e a polêmica quanto a sua cidadania parece já ter sido superada. Mas aí vem outra questão, todo robô terá direito à cidadania? Quais serão as regras para a concessão de cidadania aos robôs? E quais tipos de robôs poderão requerer cidadania? A questão pode ser bastante complexa.

 

Há também os assistentes virtuais inteligentes desenvolvidos por várias empresas de tecnologia que captam todo o tipo de informação dentro dos lares daqueles que decidem por ter a comodidade que esses produtos oferecem, como por exemplo, controlar luzes, fechaduras, eletrodomésticos, switches e outros dispositivos inteligentes integrados na automação residencial. Por outro lado, esses dispositivos podem captar e gravar todos os tipos de dados incluindo voz e imagens, ou seja, o usuário pode ser flagrado em momentos íntimos. Os usuários desses dispositivos ficam completamente vulneráveis, seria o fim da privacidade como a conhecemos?

Somos cada vez mais vigiados por câmeras de segurança com reconhecimento facial. Na China, por exemplo reconhecimento facial já é amplamente utilizado pelas autoridades, não apenas para identificar possíveis criminosos, mas também para identificar cidadãos que desrespeitem sinais de trânsito! E, não bastasse isso, projetam imagens do infrator em uma tela gigante e também enviam uma multa via SMS[4].

Projetos ainda mais polêmicos que evolvem projetos militares para desenvolver os denominados “killer robots” ou robôs assassinos[5] por uma universidade sul-coreana parecem ainda mais absurdos, chegam ao extremo. Mas sabemos que a indústria arma bélica é muito poderosa e gira muito a economia global.

Assim, há três pontos fundamentais do ponto de vista ético que devem ser discutidos: a) privacidade; b) o futuro dos empregos; e 3) o uso de IA artificial pela indústria.

Não há dúvida da importância da tecnologia nas mais diversas áreas da ciência e os benefícios que ela traz para a sociedade são enormes, mas não menos importante é definir como essa tecnologia é e será usada.

Não podemos negligenciar os aspectos éticos no uso para que não percamos de vez a privacidade para um estado de vigilância total que parece que é o caminho que a China está tomando.

Também não podemos nos esquecer de outra questão de extrema importância para o ser humano que é o emprego. As pessoas necessitam sentir úteis, produtivas, com um propósito de vida, construir e planejar um futuro, viajar, comprar uma casa, entre outras coisas.

Com o uso cada vez maior da automação combinada com a IA o que será daqueles trabalhadores excluídos do mercado de trabalho substituídos por robôs? É uma questão ética delicada.

Sabemos que novas modalidade de emprego surgirão, porém elas não serão suficientes para suprir a demanda de desempregados.

Alguns estudiosos e empresários como Yuval Harari, Elon Musk e Bill Gates Salário defendem a criação renda mínima para esses desempregados “vítimas” do crescimento exponencial da tecnologia. Porém, isso não me parece adequado e nem tão pouco ético, principalmente por partes das grandes empresas de tecnologia que parecem querer apenas o bônus sem arcar com nenhum ônus.

Por fim, o uso desenfreado da IA pelas diversas indústrias podem gerar uma situação caótica e delicada, na Coréia do Sul já há um movimento[6] de cientistas para boicotar o projeto dos robôs assassinos. A ética aqui mais uma vez é uma questão fundamental.

A Europa já definiu um conjunto de normas éticas para direcionar o desenvolvimento da Inteligência Artificial no continente. No Brasil já há um projeto de lei, o PL nº 5.051/2019, em discussão que obviamente precisa ser ainda muito discutido e sofrer várias alterações, pois ainda está muito longe do ideal.

 

A questão na criação de leis sobre IA recai sobre a necessidade de elas serem globais! Hoje o mundo é totalmente globalizado e conectado pela internet. Vemos que as diferentes leis contra crimes de pedofilia na internet, por exemplo, não são eficazes se o pedófilo estiver em um país diferente do da vítima.

Portanto, é clara a necessidade de uma lei ou código de ética global para tratar do assunto. Talvez seja uma visão bastante utópica, porém se que se cada país fizer a sua própria lei sobre a utilização de IA a sua ineficácia prevalecerá fatalmente.

A solução poderia estar na criação de um órgão global de IA que editasse diretrizes éticas sobre a matéria, mas ambição dos governantes que buscam desenfreadamente a liderança na corrida pela IA suprema faria com que ela se tornasse inócua.

A esperança é que as vozes dos estudiosos no assunto e de toda população global prevaleçam, mas para que isso ocorra é preciso, como dito no início, trazer o tema à discussão pública exaustiva. O interesse é de todos nós.

 


[1] Japão celebra o primeiro casamento entre robôs https://www.tecmundo.com.br/robotica/83116-japao-celebra-primeiro-casamento-entre-robos.htm

[2] O que é Replika? App usa inteligência artificial para criar um ‘clone’ seu. https://www.techtudo.com.br/noticias/2017/08/o-que-e-replika-app-usa-inteligencia-artificial-para-criar-um-clone-seu.ghtml

[3] Nove curiosidades sobre Sophia, a primeira robô cidadã do mundo https://www.techtudo.com.br/listas/2018/08/nove-curiosidades-sobre-sophia-a-primeira-robo-cidada-do-mundo.ghtml

 

[4] Como os países usam o reconhecimento facial https://www.publico.pt/2020/01/26/tecnologia/noticia/paises-usam-reconhecimento-facial-1901650

 

[5] Coreia do Sul vai criar robôs de guerra à imagem e semelhança de humanos e animais https://zap.aeiou.pt/coreia-sul-robos-guerra-imagem-semelhanca-humanos-animais-256300

 

[6] Cientistas querem boicotar universidade por suspeita de construção de armas autônomas https://epocanegocios.globo.com/Tecnologia/noticia/2018/04/cientistas-querem-boicotar-universidade-por-suspeita-de-construcao-de-armas-autonomas.html

 

Comunidade Legal Hub
Ler conteúdo completo
Indicados para você